Capítulo I - Fogo no Pavio
Era supostamente
um momento de tensão e perigo, J.B. e Aramis acompanhavam inseguramente, e
quase na retaguarda, o grupo de doze homens hierarquicamente enfileirados em
busca do invasor misterioso. Apenas o tritinar dos grilos era ouvido naquela
quente madrugada, como se fossem os únicos prepotentes insetos a fazer um som
tão peculiar de se nomear. Pairava um mormaço típico de Santa Guarataporinha do
Leste, a grama daquela trilha parecia seca de sol, mas nem mesmo os passos ou a
respiração daquele pequeno esquadrão faziam ruído algum. A atividade maior
estava em suas mentes e nas bombas cardíacas que levavam no peito, como animais
aguçando instintivamente os sentidos frente ao perigo iminente.
Neste grupo havia
um 2° sargento, que estava responsável pelos integrantes da equipe de serviço
daquele dia, um cabo que o auxiliava no comando, três soldados especializados,
dos quais J.B. e Aramis faziam parte, e mais a equipe da patrulha noturna que
acabara de chegar ao local.
Até aquele ponto
o matagal ainda contornava o muro do aeroporto, dali para frente tudo o que se
podia ver era um vasto horizonte escuro e a pista sem fim, onde raramente algum
avião decolava ou aterrizava. Foi neste momento que o sargento-de-dia deu a
ordem:
-Separem-se em duplas e chequem toda a área.
Os dois soldados
trataram logo de seguir juntos continuando a contornar o muro e há certa
distância da dupla mais próxima, J.B. sussurra ao parceiro:
-E agora Aranhão? Um dos inúmeros
apelidos dos quais chamava o amigo. Este, em especial, usado nos momentos de
perigo, tentando encontrar alguma força no outro e sentir-se protegido. Aramis,
ainda mais atônito responde instantaneamente:
-Fodeu!
Há exatos quinze
minutos atrás, esta mesma equipe de patrulha que seguia como uma matilha
silenciosa pela escuridão da noite era chamada na base central da F.E.A.R. para
atender um alerta de código vermelho no aeroporto. Os brutamontes engoliram de
uma só vez seus pedaços de pizza, apanharam seu armamento e saíram cantando os
pneus da 4x4 negra, afoitos por carnificina, com o giroflex vermelho ligado e
em velocidade alucinante, parecendo o próprio rabecão das trevas. Foram solicitados
pelo rabugento sargento-de-dia (chamado assim apesar de tudo estar acontecendo
durante a noite, mas considera-se o sistema 24 horas, onde um dia é composto
por um dia e uma noite também), que acordara puto da vida pelo alarme de
emergência, levando-o a imaginar em segundos todo um filme onde ele ficaria
quase a manhã inteira do dia seguinte respondendo fichas, questionários e
inquéritos para diversos oficiais de segurança e investigação sobre o que
ocorrera durante seu comando que, aliás, era o procedimento padrão para
alterações durante o serviço. Em frente ao seu alojamento estava Moisés, o
soldado que estava de guarda durante aquelas duas horas, esperando ordens com
olhos atentos e arma carregada.
Moisés andava
pelo pátio do aeroporto fazendo a ronda noturna minutos antes e vira um invasor
passando desastrosamente bem debaixo de uma lâmpada, na extremidade do pátio,
em frente ao armazém de combustíveis. Mirou rapidamente no vulto e, como por
intervenção divina, percebeu a merda que iria fazer atirando na direção
daqueles gigantes botijões de etanol. Estava muito longe para tentar qualquer
contato verbal com o elemento intruso. Correu em disparada atrás da sombra
esguia, mas hesitou no meio do caminho e foi chamar reforços, eclodindo toda a
cadeia de acontecimentos sucessores.
Toda essa
confusão seria evitada se não fosse pela tamanha imbecilidade de Aramis.
Era difícil
definir entre J.B. e Aramis, qual dos dois era o mais idiota. Nascidos em uma
época de ausência paterna e criados por mães superprotetoras, tiveram um
desenvolvimento tardio e sua facilidade para se meterem em confusão era quase
natural.
J.B. sempre
destemido e aventureiro cresceu sendo o único filho homem da família. A própria
proteção da mãe, em contrapartida, o levou a desenvolver o espírito desordeiro
e inquieto. Necessitava de ação para sentir-se vivo e pouco lhe importava as
conseqüências.
Aramis fazia o
papel do irmão mais velho em casa e qualquer lugar, sempre recalcado e medroso.
Sempre fora um bundão, na escola não se metia em brigas, era um desastre com as
garotas e tinha síndrome de bicho-do-mato.
Como se o
universo fosse manipulado por uma criança sacana, os dois protagonistas foram
jogados um na existência do outro, como personagens de aventuras diferentes
sendo obrigados a coexistirem na mesma estória.
Ao completarem
dezoito anos, sem a mínima nobre noção do que fazer na vida alistaram-se nas
fileiras militares da F.E.A.R., organização militar governamental de seu país.
A sigla significa Forças Excepcionais
Armadas e Radicais, e sua ideologia e funcionamento fazia jus ao título.
Na F.E.A.R. todos
os garotos aprendiam a ser homens e com o tempo também desaprendiam. Isolamento
social, rotinas de treinamento intensivo e técnicas mercenárias eram os carros
chefe dos ensinamentos da organização. Mau comportamento era castigado por
longos confinamentos, a comida tinha um gosto muito estranho e os candidatos a
soldados eram escolhidos a dedo. J.B. e Aramis tiveram sorte (ou azar) de
ingressarem na F.E.A.R., pois tinham facilitadores internos que o ajudaram a
passar nos testes. Suas mães choravam de alegria e louvor, agradeciam aos céus
por aquela dádiva, os parentes vibravam de alegria e os recrutas
recém-ingressos estavam mais amedrontados do que ratos em um laboratório.
Muitos entravam em colapso nervoso logo nos primeiros anos.
The Controversial Wall of Brainless Soldiers - do artista de rua Blu, em Campobasso, Itália.
Após o intenso e
maçante período de formação uma distribuição é feita entre os soldados,
definindo em que área atuarão durante os anos de caserna. Preguiçosos e
desleixados como J.B. e Aramis certamente não eram escolhidos para trabalhos e
missões de glória. Os dois cruzaram seus caminhos quando foram designados para
trabalhar na Subdivisão de Super-Suprimentos, fazendo a estocagem no
almoxarifado daquela base. Empilhar caixas e mais caixas era a realidade de seus
dias, o armazém fedia a urina de gato. Apesar de personalidades opostas tinham
lá suas identificações e a amizade cresceu naturalmente. Logo estavam
frequentando as casas um do outro, partilhando o mesmo baseado e barbarizando
de motocicletas pelas ruas da elitista Santa Guarataporinha do Leste.
Pode-se dizer que
a união dos dois potencializava o imã de encrenca que cada um parecia levar
consigo. Seus fins de semana eram pura desordem, anarquia e caos. Praticavam
racha de moto pelas cidadelas vizinhas, fugiam de puteiros sem pagar, matavam
serviço durante a semana indo à praia e todo tipo de arruaça. Ainda que saíssem
para uma noite normal, sempre acabavam numa barafunda. Típico dos jovens da
região, que nenhum dinheiro possuíam e da noite para o dia, sem preparo prévio,
estavam recebendo gordas quantias pela “defesa da Nação”. Claro que a "Força" era pra quem tinha fibra, seriedade e planos de carreira, uma ótima opção se não fosse por toda a descarga mental e emocional fortes demais para garotos perdidos desde muito cedo. Mas a amizade
prevalecia e era daquelas raras, apoiavam-se nos momentos difíceis, confiavam
sem cobranças e enfrentariam uma gangue inteira um pelo outro, como acontecera
uma vez em uma surra épica terminando em internação, ossos quebrados e sete dias no xadrez do batalhão.
Durante aquele
serviço no aeroporto não foi diferente. Retornando ao dado momento, Aramis
indagava ferozmente ao amigo:
-Porra mano, da onde você tirou essa idéia! Como
assim querer dar um susto no Moisés?! Onde tava com a cabeça, porra?!
-Se você tivesse se importado mesmo, não teria
vindo comigo, Mané... Deu de
ombros J.B., guardando a pistola no coldre, já que a ameaça era uma farsa.
Aramis estava
transtornado com o fato de estar naquela situação ridícula, perseguindo um
invasor que na verdade era ele mesmo. Não tinha levado a sério quando J.B. o
chamou para o fundo do pátio para pregar uma peça em uma pessoa armada. Pensou
que no máximo fumariam ou
tomariam um goró pra relaxar. Mas o
amigo se superou mesmo quando passou na ponta dos pés, mais como palhaço do que
como suspeito, debaixo da lâmpada, atraindo a atenção do esperto Moisés, que
veio correndo como um Pittbull pra
cima deles com arma em punho e sangue no zóio.
Só conseguiram se
safar porque correram por trás do hangar por uma passagem que dava no
alojamento dos soldados, e no momento do alarme já estavam fora de suspeita
tentando recuperar e disfarçar o fôlego ofegante. Aramis, num lampejo de
sensibilidade, pensou na tristeza que seria para a mãe, os irmãos e a namorada,
caso ele fosse preso por aquele ato infantil. Ou pior, poderia ter morrido. Mas
logo dissipou esses pensamentos, que não costumam mesmo passar frequentemente
pela cabeça de um pós-adolescente vivendo perigosamente. A morte não fazia
parte de seus planos, quando tinha algum. J.B. apenas ria, sabe-se lá o que
passava na mente daquele ser.
Os dois patetas
agora caminhavam ao relento esperando que toda aquela babaquice tivesse logo um
fim, talvez o rabugento-de-dia desistisse do encalço ao fantasmagórico invasor
dali a pouco. Estavam tão longe do pátio e do hangar que mal podiam vê-los. De
repente Aramis se depara com uma espécie de casamata. Identificou que era mesmo
uma casamata, pois havia visto uma durante o treinamento na selva.
-Que porra é essa aqui? Levantou a camuflagem e uma pequena porta de aço
apareceu com a inscrição “BPEX” e o símbolo caveirístico de caution, com a borda zebrada em amarelo
e preto.
-Ah deixa quieto Arame, vamos voltar e falar pro sargento que
o Moisés ficou maluco e tá vendo espíritos. Disse J.B. fazendo cara de
pouco interessado.
Dessa vez foi
Aramis quem estava procurando por confusão, forçou a pesada porta e ela abriu.
Estava escuro, mas percebeu que havia uma escada levando ao subterrâneo. Pediu
para o amigo iluminar com o visor do celular para ele descer e encontrou
resistência.
-Você não acha que já estamos bem enrascados, não?
Vai ficar entrando nesses buracos agora? Já demos sorte de não descobrirem que
o invasor era a gente! Sai daí!
-“Era a gente” o cacete! Foi
você quem passou igual uma gazela saltitante debaixo da luz. Agora cala a boca
e ilumina essa merda que eu quero ver o que tem aqui.
Desgostoso, J.B. foi iluminando a escadaria abaixo
para o cúmplice e logo perceberam ter chegado a uma espécie de laboratório.
Estava tudo trancado, portas, gavetas, armários e o que mais tivesse fechadura.
A única coisa que podiam enxergar naquela escuridão eram alguns tubos de ensaio
através do vidro dos armários, todos com cores diferentes e minúsculos rótulos
escritos em inglês. Aramis muito observador vasculhava cada canto. J.B.
interviu:
-Porra, que lugar sinistro Aranha! Vamo sair
daqui! Tá parecendo laboratório do Resident Evil.
Aramis estava muito curioso mas sabia que já
estavam bem ferrados para ficarem fuçando aquele laboratório secreto. Saíram
dali e voltaram para o aeroporto. A madrugada passou, ninguém dormiu e nenhum
intruso foi encontrado.
Alguns
dias depois, durante o trabalho diário no almoxarifado da F.E.A.R., Aramis
recebeu uma ordem de seu chefe para levar alguns documentos à Subdivisão de
Manipulação. Era de praxe para Aramis fazer serviços dos mais diversos para seu
Tenente chefe, sem nunca perguntar motivos ou razões, claro. Limpar banheiros e
descarregar caminhões de suprimentos eram os mais enfadonhos. Ele montou em sua
moto e saiu para o destino da missão, que não ficava nada perto, o laboratório
de manipulação de medicamentos da F.E.A.R. não era muito acessível, apenas
pessoal autorizado transitava por aquela área.
Chegando
ao laboratório, passou por uma câmara de destoxização e foi procurar o
responsável que assinaria aqueles documentos. O Coronel responsável pela Subdivisão
de Manipulação era um senhor de pele muito branca, óculos com lentes bem
grossas e sequer levantou os olhos de seus papéis para receber a enérgica
continência de Aramis. O soldado apanhou os documentos de dentro da pasta e só
então percebeu que estavam em um envelope com um carimbo de “confidencial” em letras garrafais e
havia também uma minúscula consideração no rodapé:
Project BPEX,
1972-2020.
Aramis permaneceu parado como uma estátua olhando fixamente aquela inscrição e nem percebeu que o Coronel começava a ficar irritado com aquela encenação de morte cerebral. O velhote, tendo que interromper seus afazeres, perguntou:
-Algum problema, soldado?
-Na-não senhor, de forma... alguma. Respondeu ele, todo enrolado. Foi acometido por uma vontade louca de sair correndo dali com aquele envelope e decifrar de uma vez por todas aquele enigma. Não podia acreditar que a resposta poderia estar o tempo todo debaixo de seu nariz.
O pálido homem toma o envelope impacientemente da mão do garoto e se retira para poder assinar os misteriosos documentos em uma sala aos fundos. Aramis, puto da vida amaldiçoa a si próprio, sabendo que perdera a chance de descobrir o que tinha por trás daquele laboratório secreto que vira dias atrás. Se prestasse um pouco mais de atenção teria sacado tudo antes e poderia dar uma olhada naqueles documentos. Mentira, os documentos confidenciais são entregues aos oficiais em envelopes colados e selados e assim retornam ao emissor, não havia maneira de abrir aquela porcaria sem rasgar o envelope.
Sem uma palavra o Coronel voltou com o maldito envelope devidamente lacrado e entregou-lhe. O soldado pediu permissão para se retirar, prestou a bendita continência novamente e rompeu com fúria rumo ao seu local de trabalho. Na saída, passou mais uma vez pela câmara destoxizante, que lhe soltou outra vaporada de gás. Irritou-se ainda mais e sentiu vontade de jogar uma granada e explodir aquela merda toda, Aramis era um jovem muito estressado às vezes. Foi então que parou subitamente, olhou para trás, mais precisamente para aqueles jatos de vapor e uma grande ideia lhe veio à mente. Como não havia pensado nisso antes!
Aramis costumava assistir programas infantis educativos quando criança e aqueles sobre ciência e experiências mirabolantes eram seus favoritos. Lembrara de ter assistido uma vez, não lembrava exatamente onde, um programa que ensinava a abrir envelopes colados em vapor de água. O vapor derrete a cola e o envelope pode ser aberto sem deixar vestígios.
Montou na moto e saiu em disparada pensando onde poderia fazer aquela minuciosa operação. Talvez o mais seguro fosse levar o envelope para sua casa e abrí-lo, mas não, era longe demais. Precisava de um local mais próximo, sem pessoas por perto, com no mínimo uma panela, água e um fogão. Por sorte lembrou-se de um tio que morava dentro da base militar e sua casa era um tanto afastada, o lugar ideal. Bastava virar à direita e seguir pela avenida principal em direção à área reservada à residência dos militares. Bastava...
Na euforia do momento, Aramis em alta velocidade ao fazer a curva, tenta desviar de um cão, que saiu ninguém sabe de onde, do inferno talvez, perde o controle da direção e arrebenta a fuça em uma árvore. O cãozinho sarnento assistia solitariamente a moto toda arrebentada no chão, com a roda ainda girando, e seu pobre herói totalmente inconsciente largado poucos metros adiante na pista.
Aramis costumava assistir programas infantis educativos quando criança e aqueles sobre ciência e experiências mirabolantes eram seus favoritos. Lembrara de ter assistido uma vez, não lembrava exatamente onde, um programa que ensinava a abrir envelopes colados em vapor de água. O vapor derrete a cola e o envelope pode ser aberto sem deixar vestígios.
Montou na moto e saiu em disparada pensando onde poderia fazer aquela minuciosa operação. Talvez o mais seguro fosse levar o envelope para sua casa e abrí-lo, mas não, era longe demais. Precisava de um local mais próximo, sem pessoas por perto, com no mínimo uma panela, água e um fogão. Por sorte lembrou-se de um tio que morava dentro da base militar e sua casa era um tanto afastada, o lugar ideal. Bastava virar à direita e seguir pela avenida principal em direção à área reservada à residência dos militares. Bastava...
Na euforia do momento, Aramis em alta velocidade ao fazer a curva, tenta desviar de um cão, que saiu ninguém sabe de onde, do inferno talvez, perde o controle da direção e arrebenta a fuça em uma árvore. O cãozinho sarnento assistia solitariamente a moto toda arrebentada no chão, com a roda ainda girando, e seu pobre herói totalmente inconsciente largado poucos metros adiante na pista.
Continua...

Vixi Aramis se fodeu... esse "to be continued" sempre me deixam tensa no aguardo de novas estórias, gostei bastante, espero que você poste sempre, abraço!
ResponderExcluirotimos capitulos, gostei da imagem de arte de rua curiosa para ler a proxima parte !!
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